quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Laranja Mecânica": um pouco da velha ultra-violência.


Feito em 1971, "Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick, é um marco na história do cinema. Conta a forte história de Alex (Malcolm McDowell) um jovem sem limites e extremamente violento, cujo passatempo favorito é espancar velhinhos e estuprar mulheres. Entretanto, um dia ele é preso e aceita ser cobaia de um tratamento intensivo e polêmico para "retirar" toda a violência nele contida. "Laranja Mecânica" ficou conhecido como um filme politicamente incorreto, chegou a ser proibido em alguns países, foi retirado de circulação pelo próprio Kubrick e se tornou - não tem palavra melhor - uma lenda!


Como toda lenda, "Laranja Mecânica" sempre foi cercada de mistérios. Teve uma época que ele só podia ser visto escondido, emprestado por baixo dos panos, como se fosse contrabando, com uma imagem péssima, a gravação da gravação. Tudo porque algumas pessoas começaram a achar que tudo aquilo que aparece era como se o Kubrick estivesse dizendo "Olha, que legal! Estuprar e espancar!". Claro que não era isso; mas as cenas eram tão fortes e tão reais para a época, que gangues começaram a se espelhar. Quem aí nunca ouviu falar da famosa cena do estupro ao som de "Singing in the rain", por favor saia do blog e se mate. Qualquer reles mortal já pelo menos ouviu o eco dessa história. Na época, os garotos começaram a cantar essa música em seus estupros. E a culpa caiu para cima de quem? Mr. Stanley Kubrick, que se tornou o "responsável" pela onda de violência que se instaurou. Por esse motivo, ele se viu obrigado a retirar o filme. E durante muitos anos, "Laranja" foi sinônimo de mistério; aumentado pelos boatos de gente que saiu vomitando do cinema durante as exibições.


Claro que, pros padrões atuais de carnificina alá "Jogos Mortais" e seus discípulos, "Laranja Mecânica" é brincadeira de criança, filme da Tela Quente. Porque simplesmente tripas não escorrem e não tem nenhuma cabeça aberta com o cérebro à mostra. Então, você me perguntará, por que diabos tanto drama? A questão central é exatamente essa: Kubrick nunca deixou nada à mostra. O terror psicológico de você quase-ver, quase-chegar-lá, ou só ouvir os gritos da pessoa atacada é pior do que ver a coisa em si. Na supracitada cena do estupro, a gente nem vê o estupro em si. Mas aquela preparação... Já dá arrepios...


Quando chega a parte do tratamento, a coisa piora. A tortura que fazem ao Alex nos atinge também e, juro, você passa a quase ter pena dele. O sofrimento psicológico é mais forte e mais intenso que a tortura física que ele causou nas pessoas. E ele sofre, sente dor de verdade, náuseas. E você lá, junto com seus anti-herói. Esse é outro fato interesse no filme: você torce pelo Alex. Mesmo sendo contra todos os seus princípios torcer por alguém como ele, mentiroso, violento, estúpido e cruel. Ele faz aquelas atrocidades na primeira parte do filme por pura e simples diversão. E agora você me pergunta: como torcer por um cara desses? Pois é, mas você torce. E muito.


Nos extras do DVD do meu irmão, tem uma entrevista com o filho do Malcom McDowell na qual ela diz que já encontrou gente que abriu a camisa no meio da rua e mostrou uma tatuagem enorme do pai dele no peito. Aquela cara do Alex, os cílios postiços e o chapéu-coco se tornaram um símbolo. Você não precisa ter visto o filme para saber quem ele é e o que ele se tornou na mente de tanta gente: sinônimo de ultra-violência. E, claro, McDowell se tornou sinônimo de puta ator.

Mr. Stanley Kubrick nunca fazia algo meia-boca. Nem dois filmes iguais. Quando resolveu fazer ficção científica, ele fez O filme de ficção científica. Quando decidiu se aventurar pelo suspense, ele fez, para muitos, O filme de suspense. E isso não foi diferente com "Laranja Mecânica". Ele fez O filme sobre a cultura jovem. O mais forte, o mais intenso e, pode acreditar, o mais inesquecível.
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Ps.: Eu demorei quase dois meses escrevendo esse post e confesso que, ainda sim, ele não me agradou. Escrever sobre obras-primas é extremamente complicado porque, sinceramente, não me sinto ainda capaz o suficiente para tecer algum comentário realmente válido sobre. Entretanto, assistir "Laranja Mecânica" e não escrever sobre ele seria pior ainda. Um filme como esse deve ser visto e comentado, para que todos se sintam interessados em assistí-lo.

3 comentários:

  1. Olá cinéfila, apenas para complementar o seu post, No filme viajamos de incerteza em incerteza, em círculo fechado, labirinto sem Ariadne, perseguidos pelos Minotauros do olhar.

    A Clockwork Orange, "Aventuras de um jovem cujas principais inclinações são a violência, a violação e Beethoven" é mais um círculo fechado de Kubrick.

    Encerrados no labirinto mental de Alex, os espectadores vão progressivamente passando de vítimas imoladas a elementos de um Coro da Tragédia Grega que clama vingança, observa, horroriza-se e revê-se.

    Alex, novo Teseu, novo Ulisses, novo Dante, entra no labirinto, viaja (buscando-se a si mesmo) e passa do Céu ao Inferno, num êxtase soturno e satírico, num olhar rasgado e réprobo, até passar a 655321.

    A viagem, o Topos da viagem, que nega e denega, cria e recria o castigo, destrói e constrói o crime, faz-nos entrar no labirinto do social.

    Metáfora de si mesma, a viagem/percurso pela iconoclastia surge acompanhada por Guilherme Tell, ou Beethoven, entre a repulsa e o fascínio.

    O nosso olhar não está, de todo, livre.

    Kubrick encerrou-nos numa catarata visual, visionária e de experiência, da palavra violenta à violência ela própria. E surge o dilema: qual a violência mais reprovável? A do Estado ou a dos jovens?

    Que olhar nos oferece Alex? Ambos. Tal como diferente é a visão que temos de cada um dos seus olhos. E este não é um pormenor meramente estético. Trata-se de uma chave ideológica que nos abre as portas para os níveis da consciência.

    Num estilo compósito, de olhares estilhaçados, a cena explode simultaneamente em cada plano, em cada palavra (em cada língua – "nadsat"), em lobotomias estilizadas, de leituras assimétricas, com um Alex/ Satanás / Lúcifer / Anjo Caído / Anjo Maldito, acusado e acusador, devorador e devorado.

    E de novo o olhar. O olhar da máscara de Carnaval, o olhar/ilusão, de um voyeur polifacetado que nos encerrou num labirinto. Ou que nos disse que o labirinto somos nós.

    O seu post está muito bom, faltou apenas desmembrar a excelencia dissertação sobre a violencia presente não só no personagem de Alex que passa a se tornar uma pessoa sem personalidade ou dissernimento para identificar o que é ético, mas de uma sociedade de pessoas como ele que no final se encontram curadas como o mesmo...
    Leonardo F.

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  2. Léo,só faltou a fonte, de "sua" visão do filme http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20080319122713AABNFE8

    pra quem tiver mais curiosidade, tem mais pontos de vista lá nesse link.

    bem, acho a violência do filme completamente justificavel, mostra o ser humano,denatureza, violenta e irrepensável, e nos faz questionar se alex é o vilão ou só mais uma vitima da sociedade.
    bem, o kubrick colocar o Malcolm McDowell como Alex (sendo q no livro ele é um pirralho) foi muito boa,e encaixou muito bem no filme, enfim, um filme muito bom, q nao tem violencia gratuita (tem violencia por alguma razao) q só nao levou um oscar por causa da mente tacanha da sociedade americana da época (nao q a sociedade americanadeagora seja de eruditos).

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  3. Por que você não gostou do post?
    Tudo bem que eu não vi o filme, então não posso falar muito, mas a minha vontade, curiosidade e admiração pela sua crítica aumentaram com esse texto. Então, pra mim, ele foi ótimo.

    É só marcar um dia que eu vou aí assistir.

    Irmã maravilhosa. (L)

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